Subcomissário das bastonadas passa de vilão a herói

Filipe Silva, que em maio de 2015 ficou conhecido como o PSP que agrediu dois adeptos do Benfica, deu agora nas vistas pelas melhores razões: conseguiu, com um colega, dominar uma verdadeira batalha campal

Ficou conhecido pelas imagens das bastonadas a um adepto do Benfica, em Guimarães, em frente ao filho menor daquele, num caso cujo julgamento começará no dia 16 de abril. Mas agora o subcomissário Filipe Silva passou de “vilão” a “herói”, ao enfrentar, com um só agente ao seu lado, uma batalha campal de “casuals” do Sporting de Braga contra simpatizantes do Vitória de Guimarães, num total de cerca de 200 adeptos rivais.

O episódio passou-se a 18 de fevereiro, horas antes do sempre escaldante dérbi minhoto. Enquanto o agente João Fontes disparava munições reais de intimidação para o ar, ao seu lado o subcomissário Filipe Silva avançou, isolado, para o meio dos dois grupos que se agrediam. A situação estava muito complicada, com os grupos a usarem tudo o que estava ao seu alcance para se atingirem reciprocamente, desde material pirotécnico proibido a garrafas de vidro, pedras e cadeiras, ora usadas como armas de arremesso, ora para se retirarem os seus ferros pontiagudos.

Segundo apurou o i, durante cerca de três minutos, aquele oficial e o agente que estava com ele em serviço enfrentaram sozinhos as duas centenas de adeptos em luta desenfreada e selvática, tendo este último sido obrigado a fazer disparos de intimidação com projéteis reais para o ar antes de chegarem reforços da Esquadra de Intervenção Rápida e do Corpo de Intervenção que estavam mais próximos do Estádio D. Afonso Henriques, conforme se vê nas imagens difundidas nas redes sociais por alguns daqueles que logo filmaram a partir de suas casas.

No meio da barbárie ainda foram amolgados automóveis estacionados nas imediações e partidos os vidros da montra da piscina dos Bombeiros Voluntários de Guimarães, cujos elementos de piquete acabaram por socorrer vários feridos até dentro de Esquadra da PSP.

Mesmo com a chegada de reforços da PSP, melhor equipados para as situações de motim, só decorrida cerca de meia hora a situação foi controlada, tendo sido possível conduzir à Divisão de Guimarães da PSP ao todo 52 “casuals” (adeptos que vestem normalmente de negro, sem emblemas que denunciem as suas preferências clubísticas), conotados com o Sporting Clube de Braga, um dos quais, residente em Gualtar (Braga), teve de receber tratamento hospitalar.

Ferimentos em polícias e adeptos Apesar de a PSP ter referido apenas a utilização de munições de borracha para conter uma situação que se avizinhava incontrolável com o lançamento de explosivos pirotécnicos, de garrafas e de outros objetos improvisados como armas de arremesso, o i soube que foi numa primeira fase a série de tiros de intimidação disparados pelo agente da PSP com a sua arma de fogo a dispersar e depois a manter a uma distância mínima os adeptos rivais.

Dois outros adeptos bracarenses sofreram ferimentos ligeiros, assim como três agentes da PSP, um atingido com uma garrafa de vidro, outro num joelho, enquanto ainda outro polícia viu ficar danificado o equipamento de alta segurança, dada a violência do choque sofrido.

Segundo diversos testemunhos anónimos, se não tivesse sido aquela intervenção, as consequências dos desacatos poderiam ter sido muito mais graves, mesmo mortais, já que numa lógica de psicologia das multidões, ambos os grupos de adeptos fanáticos não paravam as agressões, numa espiral de violência que não é muito frequente em redor dos estádios portugueses, mesmo num dérbi, como o Vitória de Guimarães – Sporting de Braga.

Apanhados em flagrante Graças ao sangue-frio dos dois polícias, secundados pelos outros camaradas que chegaram como reforços, o Comando Distrital de Braga da Polícia de Segurança Pública passou a dispor de um ficheiro único e bastante atualizado de mais de meia centena de “casuals” apanhados em flagrante delito, todos eles conotados com o Sporting de Braga, cerca de metade dos que se envolveram em confrontos com diversos simpatizantes do Vitória de Guimarães e estimando-se em mais de duas centenas os adeptos rivais que travaram a batalha campal.

A estratégia da PSP de Braga resultou duplamente, já que além de fazer uma maratona de três horas para a identificação total, um a um, de todos os “casuals” – que têm provocado “dores de cabeça” à Polícia e principalmente nos jogos do Estádio Municipal de Braga – apanhados em flagrante delito, durante esse período, entre as 19 e as 22 horas, esses mesmos adeptos ficaram impedidos de assistir ao desafio ou de deambular também pelas imediações do estádio, num jogo histórico em que o Sporting de Braga goleou, por cinco bolas a zero, o seu secular rival, Vitória de Guimarães, no próprio Estado D. Afonso Henriques. Oresultado, aliás, terá contribuído para no final haver apedrejamento de um autocarro bracarense na Variante de Creixomil, quando os responsáveis dos arsenalistas já regressavam em coluna para a cidade dos arcebispos, episódio que mancharia ainda mais os incidentes entre adeptos minhotos.