Gui, o super-herói de palmo e meio por quem os futebolistas vão a jogo

Gui é uma criança de quatro anos que procura um dador compatível para um transplante de medula óssea, e esta é uma história de vida que cruza com o futebol. Porque o Gui gosta de bola e porque o plantel do Rio Ave associou-se à família Mota, fazendo um vídeo a apelar à participação numa marcha solidária que acontece este domingo, em Paredes.

Marisa e Mário estão casados desde 2011. A vontade de engravidar, conta ela, sempre foi uma constante, até ao dia 23 de março de 2014, quando o Guilherme nasceu. “Era um filho muito desejado”, recorda. Dois anos mais tarde, outro momento de felicidade embalava a vida pacífica desta família, residente em Paredes. “Éramos felizes. Eu trabalhava, a minha mulher também. Tínhamos o Guilherme, depois nasceu o Salvador, em abril de 2016.” Tudo corria bem, até julho desse ano, quando foi diagnosticada a doença do Gui. “Foi uma grande reviravolta”, conta Mário Monteiro.

A vida é uma partida em constante disputa e há uma criança a distribuir abertamente um jogo bonito de sorrisos, enquanto se defende aguerridamente, com a força de um campeão, para vencer. Chamam-lhe “super-herói”, mas até esses precisam de ajuda. O tempo joga em contra-ataque, passa rápido e só o medo permanece. O Gui precisa de um transplante de medula óssea até junho e a obtenção de um resultado positivo passa, necessariamente, pela entrada em campo de um dador compatível.

Uma imagem do panfleto da marcha solidária deste domingo, em Paredes

Este domingo de manhã, pelas 9h30, realiza-se uma caminhada solidária de 5 quilómetros, com início e fim no Parque da Cidade de Paredes. A ação é um passo simbólico para sensibilizar a sociedade para a doação de medula e para angariar fundos para a família. Várias personalidades dão a cara por esta causa e o plantel do Rio Ave não quis ficar fora de jogo.

O AVANÇADO E O CAPITÃO
Foi o ponta-de-lança Guedes, avisado por um amigo com quem jogou no Penafiel, que fez a sugestão ao gabinete de comunicação da equipa vilacondense. “A nossa profissão tem uma visibilidade maior e nós não podemos ficar indiferentes, porque também é esta componente humana que engrandece o futebol”, afirma o avançado de 30 anos, à Tribuna Expresso.

Por sua vez, o médio e capitão de equipa Tarantini – mestre dentro e fora das quatro linhas – revela já ter efetuado doação de medula óssea no passado e reitera a importância de o clube e os jogadores se associarem a este tipo de campanhas, fundamentais, na sua opinião, “para despertar a consciência das pessoas”.

Mais do que afirmar o seu nome no mundo do futebol, o jogador e autor do livro “A Minha Causa” enaltece que, acima da carreira desportiva, o mais importante é tentar moldar positivamente a vida dos outros. “Os jogadores de futebol vivem muitas vezes numa bolha que não é real. Daqui a muitos e muitos anos – tal como hoje há miúdos que não sabem quem foi o Eusébio -, muitos deles também não vão saber quem foi o Ronaldo. O que importa é deixarmos uma marca nas pessoas, aquelas que viveram no nosso tempo, porque tudo é efémero”, acredita o atleta de 34 anos.

O INÍCIO DOS DIAS SEM TEMPO
Marcar positivamente quem o rodeia é aquilo que o Gui, prestes a completar quatro anos, melhor sabe fazer, mesmo nos momentos mais complicados. Como tantas outras crianças, gosta de brincar com os carrinhos e, sobretudo, de jogar à bola. Quando está em casa, é comum encontrá-lo no sofá, no colo da mãe, a ver a série de desenhos animados ‘Patrulha Pata’. “Nunca deixa de sorrir e está sempre muito bem-disposto. É o facto de ele ser assim que nos dá força. É ele que nos tranquiliza, muitas vezes, e nos diz que vai ficar tudo bem, sempre com aquele rosto muito meigo dele e o olhar muito brilhante”, frisa Marisa Mota, ao falar do filho.

A história do Gui poderia ser igual à de tantos outros miúdos. Mas não é. “Era uma criança totalmente saudável. Nunca teve qualquer problema de saúde. Nem aquelas constipações, gripes, nunca teve nada. Tinha pilhas para o dia todo, agora costumo dizer que só tem pilhas para meio dia”, descreve o pai. De um momento para o outro, tudo mudou.

Na altura com 2 anos e meio, as nódoas negras não desapareciam das pernas do Guilherme. A respiração era ruidosa. A maré de felicidade virou tempestade quando a criança foi levada para o Hospital de São João, no Porto. Após a realização de um eletrocardiograma, análises ao sangue e de uma ecografia abdominal chegou o diagnóstico: leucemia linfoblástica de células T, considerada de alto risco.

Os pais e o irmão mais novo do Gui realizaram testes de compatibilidade para o transplante de medula óssea, mas os resultados foram negativos. Da unidade hospitalar, a criança seguiu imediatamente para o IPO, onde iniciou o tratamento, composto por nove ciclos de quimioterapia, ao longo de um ano e dois meses.

Essa foi a primeira fase, quando o Gui ainda não tinha perceção do que realmente se passava e o combate à doença parecia estar a correr bem. Mas o início deste ano haveria de começar da pior forma.

QUANDO O INVERNO CHEGOU
A 7 de janeiro, o Gui “teve uma recaída muito violenta”, refere o pai. Perdeu a fala, apresentava sinais de paralisia facial e falta de equilíbrio. Foi submetido a novos exames. “Se numa primeira fase o Guilherme tinha uma célula cancerígena no sistema nervoso, agora tem 13 mil”, conta Mário Monteiro. A criança terá, até junho, mais quatro ciclos de quimioterapia, mais agressiva, pela frente.

Os internamentos que podem durar até uma semana – em isolamento devido às baixas defesas imunitárias – vão regressar, depois de um período de quatro meses em que tudo parecia estar a melhorar. Não vai poder estar perto do “mano Sásá”, por quem chama recorrentemente quando está longe de casa. “Agora ele já percebe tudo o que se passa, já está mais crescidinho, e colabora muito bem com os médicos”, assegura a mãe.

A parte mais complicada, desta segunda vez, foi ter de cortar o cabelo, que entretanto já tinha crescido. Mais uma vez, a mãe foi a solução. “Para que não lhe custasse tanto, eu decidi cortar o meu também, para ficarmos iguais e ele se sentir melhor. Quando me viu a mim com o cabelo curtinho, nesse momento já só queria ficar como eu”, lembra Marisa Mota.

Aos 39 anos está desempregada. O seu trabalho é cuidar do filho mais velho a tempo inteiro. Já o Salvador, com quase dois anos, acaba por passar mais tempo com o pai, de 41, que trabalha como vigilante aeroportuário para “conseguir ter dinheiro” para a família. “Vamos arranjando forças onde não as sabíamos ter e vê-lo a sorrir é muito importante. Quando não estou perto do Gui , choro muito. Quando estou com ele, tento estar sempre a brincar. Ele tem de sentir que estamos bem”, realça Mário Monteiro.

A PRIMAVERA QUE VEM
Ainda é cedo para dar os parabéns ao Guilherme, mas talvez seja o momento certo para lhe desejar muitos anos de vida. “Ele diz que não quer receber presentes, só quer estar com os dele, com a família. Gosta de ter a casa cheia, com o irmão e os primos. Nós, enquanto pais, só queremos que ele aproveite ao máximo”, explica a mãe. Ainda falta tempo, mesmo quando o tempo corre. Mesmo quando as horas parecem suspensas numa corda de incerteza. Faltam 20 dias para este “super-herói” completar quatro anos, apagar as velas e preservar nos olhos a chama de felicidade, capaz de deflagrar incêndios de esperança nos corações da família que o rodeia. E nas mais de 500 pessoas que vão caminhar este domingo para o ver vencer.