A briga na família laranja que quase estragava o jantar a Passos

Visita à feira de tasquinhas de Pombal provocou um encontro tenso numa família desavinda. Os apoiantes do atual autarca, e recandidato do PSD, estavam na tasquinha de Pombal; os apoiantes do ex-autarca PSD, e agora candidato independente, jantavam na tasquinha de Vila Cã. Deu barulho… mas não deu molho.

cenário é este: uma tenda gigante, com mesas corridas e vinte tasquinhas, uma por cada freguesia do concelho de Pombal, mais umas quantas de coletividades e associações, incluindo a tasquinha “SLB Tetracampões 36” e a do “Núcleo Pombal SCP”.

Para o que aqui interessa, bastam duas tasquinhas. Na de Vila Cã há “carneiro das bodas”, tortulho, “bacalhau das vindimas”, chicória com batata, morcela de arroz e “sopa à antiga”. Nesta sexta-feira à noite, também há uma concentração de gente de t-shirt azul, com a inscrição “Narciso Mota – Pombal humano”, sob a imagem estilizada de um homem de queixo erguido perscrutando o horizonte, envolvido numa espécie de aura. Na tasquinha da freguesia de Pombal, a poucos metros de distância, há “carneiro à lavadeiras”, chouriça, morcelas várias, orelha de porco, moelas, “bacalhau à moda a Charneca” e “sopa da avó” (que também será antiga). Em frente a esta, há uma concentração de gente de t-shirt laranja, com a inscrição “Futuro à Frente”.

Laranjas e azuis já foram da mesma família, mas andam desavindos. O caso deu-se há mais de um ano, não por um cisma entre o “carneiro das bodas” e o “carneiro das lavadeiras”, mas por uma cisão entre os homens que estão no centro dos dois grupos: Narciso Mota, o tal que tem o rosto estampado nas camisolas azuis com ar beatifico, e Diogo Mateus, que, tanto quanto se sabe, não tem o rosto estampado em nenhuma peça de roupa.

Nesta sexta-feira à noite, os dois grupos cruzaram-se no ‘spot’ incontornável da ‘movida’ pombalense: a XXIV Feira Nacional de Artesanato e Tasquinhas de Pombal, inaugurada duas horas antes na Expocentro. Com 169 expositores de todo o país, a esperada atuação da Orquestra de Harmónicas de Ponte de Sôr, e a presença prevista de centenas ou milhares de eleitores, era inevitável que por ali passassem candidatos em campanha para 1 de outubro. Pedro Passos Coelho, em périplo autárquico para comentar assuntos de política nacional tendo como cenário diferentes concelhos, lá estava, pronto a beijar eleitoras, afagar criancinhas, distribuir bacalhaus másculos aos homens. Ao seu lado, Diogo Mateus, presidente da autarquia e candidato ao segundo mandato, bem como Pedro Pimpão, deputado e candidato à junta de freguesia de Pombal.

Sem qualquer previsão de declarações políticas, seria uma noite sem história. Passos parou em quase todos os stands, trocou umas ideias sobre os problemas da apicultura, abordou a problemática das ervas medicinais e outros assuntos, experimentou a arte de esculpir tábuas com desenhos naïf e citou Napoleão a propósito de uma artesã que vendia trevos da sorte secos e plastificados – “Era Napoleão que dizia que generais com azar, não os queria”.

E foi como dois generais à frente das suas tropas que Passos Coelho e Diogo Mateus entraram na grande tenda das tasquinhas, seguidos por umas dezenas de t-shirt no corpo e bandeira na mão, com o simples propósito de jantar. Tiveram azar. Dirigiam-se à tasquinha de Pombal quando o brado chegou da tasquinha de Vila Cã. Eram “eles”.

“Eles” são os de Narciso Mota. A rivalidade, sendo recente, tem história antiga. Mota foi, durante vinte anos, o autarca social-democrata de Pombal. Impedido pela lei de limitação de mandatos de se voltar a recandidatar, em 2013 deu o lugar ao seu número dois, Diogo Mateus. Quanto a Narciso Mota, ficou como cabeça de lista do PSD à Assembleia Municipal. Para o velho autarca,seria uma substituição transitória, apenas por um mandato, para cumprir a letra da lei; mas não para o seu sucessor, que não fazia tenções de voltar à condição de número dois.

No ano passado, deu-se o choque anunciado. O comendador Mota (que tem nome de rua e tudo) anunciou que voltaria a ser candidato à presidência da câmara, com o PSD ou sem ele. Acabou por ser sem. O PSD, no início deste ano, escolheu Diogo Mateus. E assim se chegou à situação em que o presidente da câmara (PSD) defronta o ex-presidente da câmara (ex-PSD) que é em simultâneo presidente da Assembleia Municipal (eleito pelo PSD).

Foi esta história que se abateu sobre Passos Coelho e dezenas de cidadãos inocentes que frequentavam a feira das tasquinhas na sexta-feira à noite. Mal viram chegar os PSD, os ex-PSD desataram num pandemónio, agitando bandeiras com a esfinge do comendador, alguns em cima de cadeiras, todos gritando palavras de ordem a plenos pulmões. “1,2,3, Narciso outra vez”; “Narciso, amigo, o povo está contigo” e “Pombal humano, olé” (por estranho que possa parecer, “Pombal humano” é o nome da candidatura independente). Os de laranja esboçaram uma resposta, gritando “PSD, PSD, PSD”, e quando a coisa estava prestes a descambar, “Zeca” Mendonça, o homem que resolve problemas no PSD, pôs na ordem as suas tropas e acalmou as hostes.

Mota, em declarações à imprensa, notoriamente transtornado, queixou-se de que os seus antigos companheiros de partido “viram-nos as costas na rua e já não nos cumprimentam”. Passos, com o seu imbatível sangue frio, sentou-se para jantar e fez sentar o seu candidato ao seu lado direito. Mota jurou que continua social-democrata, apesar de já não ter cartão, e prometeu ir cumprimentar Passos logo que acabasse de jantar. Passos, entretanto, pediu “sopa da avó” e “bacalhau à moda da Charneca”.

Mota acabou de jantar e saiu sem cumprir a promessa de cumprimentar Passos.

Passos acabou de jantar como se nada fosse.